As letras publicadas referem a fonte de extração, o que nem sempre quer dizer que os artistas mencionados sejam os seus criadores !!!
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<> Ninguém sabe tudo, ninguém ignora tudo, só todos juntos sabemos alguma coisa <> PAULO FREIRE
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Oceanos e marés

Leonel Moura / Daniel Gouveia *fado daniel*
Repertório de Leonel Moura 

Fui homem do mar um dia
E quando o barco partia
Levava a recordação
Também levava sinais
Da tua imagem no cais
Envolta na multidão

No mar que é traiçoeiro
Na rota de um marinheiro / Uma onda se revolta
Nos meus sinceros desejos
Mando-te abraços e beijos / Nas asas de uma gaivota

Nesse mar azul e forte
Tomava o rumo do norte / Em águas que naveguei
E os ventos em calmaria
Trazem lembraça do dia / Que o teu amor encontrei

Oceanos e marés
Desse mar de lés a lés / Que embalam meu navegar
Levem de vez esta dor
Tragam de volta o amor / Nas calmas ondas do mar

Bom tremelique

José Fernandes Castro / Neca Rafael *fado da foz*
Repertório de Zé Carvalho

Chama-se “Bom Tremelique”
O restaurante mais chique
Da  minha cidade amada
Neste solar português
Uma dose dá p’ra três
Se dois... não comerem nada

Há rissóis de camarão
Há croquetes de vitela... servidos com aparato
Mão de vaca sem ter mão
Há arroz de cabidela.... feito com sangue de pato

Língua de boi sofredor
Coelhinho à sacador... e bife à moda da casa
Temos leitão da Bairrada
E temos uma pomada.... que nos põe de grão na asa

Ovos moles ou mexidos
Pescadinha da graúda.... com o rabo na boquinha
Temos carapaus cozidos
E  temos uma miúda.... que faz coisas na cozinha 

Excelente linguado
Com molho de berbigão... tudo feito com ternura
E como prato afamado
Temos o tal salpicão... com o bom grelo à mistura

Sobremesas variadas
Bananas e marmeladas... sempre servido a preceito
É tudo à moda do Porto
E se a coisa der pró torto... há solha a torto e a direito

Doce Maria da Paz

Valentim Matias / Eduardo Lemos
Repertório de António Pinto Basto 

Cabelos negros, de pele morena, veludo
Olhos de amêndoa , dizendo
Que o que se vê não é tudo
De olhar tão doce, parece pedir perdão
Como se pecado fosse
Nascer com um tal condão

Espalhas amor/ Em tudo o que te rodeia
O teu corpo é a flor/ Preferida da colmeia
E nos teus lábios / Há sabor a doce mel
Teus sentimentos são sábios / Retiras da vida o fel

Caminhas sempre, pés bem assentes no chão
Respondes sempre presente
Ao chamar do coração 
E no teu peito onde a guerra se desfaz
Eu te canto o meu respeito
Doce Maria da Paz

Fado português *Torre da Guia*

António Torre da Guia / Alves Coelho Filho
Repertório de Nuno da Câmara Pereira 

Da guitarra o doce arpejo / Nem toda a gente o entende; 
O fado é tal qual um beijo / Dum ser que à vida nos prende

Pra se ter ao fado amor / Basta ouvi-lo uma só vez
Mas tem muito mais valor / Quando canta um português

Ouvindo a linda canção / Ninguém se pode conter
É tão grande a comoção
Que no peito o coração / Pula sempre de prazer

Sabe tão bem ouvir o fado bem cantado
Numa noite de luar
Que encantos tem, triste balada, doce toada
Que até nos convida a amar

Da guitarra o doce arpejo / Nem toda a gente o entende
O fado é tal qual um beijo / Dum ser que à vida nos prende

Quem canta seu mal espanta / Quem sofre, sabe cantar
O fadinho prende, encanta / Fazendo as mágoas passar

Esta balada dolente / Faz esquecer todo o mal
O fado dá alma à gente
E será eternamente / A canção de Portugal

Luz

Letra e música de Fernando Girão *fado maria girão*
Repertório De Cláudia Leal 

És a luz da minha vida, a razão do meu querer
E eu sem ti não sei viver
Sei que nasci só para amar-te
E a criança que há em mim não vai desaparecer

Eu quero ser sempre a dona dos meus sonhos
Contigo irei à procura de quem somos nós
Aprendi a não chorar se por acaso errar
Não importa o que sou se for feliz
Escrevendo o meu destino

Assim eu invento o nosso mundo
Na magia da emoção que vive junto a nós
É tudo o que eu quero ter, além de ti
Quando estás ao meu lado
Posso enfrentar o mundo
Posso tudo fazer se for contigo,  eu sei

Guerreiros do amor nas lutas do bem
Amantes e irmãos também
Amantes e irmãos
Seremos nós por toda a vida
E assim será eterno o nosso amor
E assim será

Melhor de mim

AC Firmino / Tiago Machado
Repertório de Mariza 

Hoje a semente que dorme na terra
E que se esconde no escuro que encerra
Amanhã nascerá uma flor
Ainda que a esperança da luz seja escassa
A chuva que molha e passa
Vai trazer numa gota, amor

Também eu estou à espera da luz
Deixo-me aqui onde a sombra seduz
Também eu estou à espera de mim
Algo me diz que a tormenta passará
É preciso perder p’ra depois se ganhar
E mesmo sem ver, acreditar

É a vida que segue e não espera p’la gente
Cada passo que demos em frente
Caminhando sem medo de errar
Creio que a noite sempre se tornará dia
E o brilho que o sol irradia
Há de sempre me iluminar

Quebro as algemas neste meu lamento
Se renasço a cada momento
Meu destino na vida é maior

Também eu vou em busca de luz
Saio daqui onde a sombra seduz
Também eu estou à espera de mim
Algo me diz que a tormenta passará
É preciso perder p’ra depois se ganhar
E mesmo sem ver, acreditar

Sei que o melhor de mim está p’ra chegar
Sei que o melhor de mim está por chegar

Do Castelo vi Lisboa

Valentim Matias / Eduardo Lemos
Repertório de Rodrigo 

Fui até ao Castelo, para te olhar, ó cidade
Notei que tens mais rugas, é natural da idade
Lembrei há quanto tempo D. Afonso te conquistou
E de então para cá quanto mudou

Tuas sete colinas não mudaram
Como sete meninas, encantaram
Poetas, prosadores, tanto te amaram
E o Tejo amigo, casou contigo
Não se deixaram

Partiram caravelas, ali, do teu mar da Palha
E nas tuas vielas cantou-se o fado canalha
Tiveste teus heróis e pregões tradicionais
E o Marquês de Pombal não esqueces mais

Rosinha da Serra d’Arga

Popular
Repertório de Mísia 

Ao sair de Dei perdi um dedal
Com letras que dizem “Viva Portugal”
Viva Portugal, viva Portugal!
Ao sair de Dei perdi um dedal

Ó minha Rosinha, eu hei de ter amar
De dia ao sol, de noite ao luar
De noite ao luar, de noite ao luar
Ó minha Rosinha, eu hei de te amar

Ó minha Rosinha, estrela do mar
Tu vais p’ra Lisboa, deixas-me ficar
Deixas-me ficar, deixas-me ficar
Ó minha Rosinha, estrela do mar

Ó minha Rosinha, do meu coração
Tu vais p’ra Lisboa, não levas paixão
Não levas paixão, não levas paixão
Ó minha Rosinha, do meu coração

Ó minha Rosinha, eu hei de ir, eu hei de ir
Jurar a verdade, que eu não sei mentir
Que eu não sei mentir, que eu não sei mentir
Ó minha Rosinha, eu hei de ir, eu hei de ir

Avenidas

Letra e música de Marco Oliveira
Repertório do autor 

Em que noite t’escondes
Em que ruas se cruzaram / Os meus olhos com os teus
Por que ventos respondes
E pressinto no silêncio / A tristeza de um adeus

Porque ainda me lembro
Das luzes de dezembro
O calor das avenidas
Um inverno em nossas vidas

Por que céus e oceanos
Hei-de lembrar o teu corpo / Uma ilha que me acolheu
E quem sabe quantos anos
Vão passar até que a gente / Veja ao espelho o que perdeu

De que sombras, de que medos
De que mágoas e segredos / Se perderam nossas vidas por aí
Porque ainda me lembro
Dos beijos de dezembro / Meu bem, o que é feito de ti?

Quero cantar

Manuel de Almeida / António Parreira
Repertório de Manuel de Almeida 

O fado tenho cantado / No meu estilo verdadeiro
A ele me tenho dado / E entregue de corpo inteiro

Com a esperança prometida / Fiz do fado com prazer
O jeito d’estar na vida / Enquanto vida tiver

Quero cantar, recordando sonhos meus
E de mim só peço a Deus
Que o fado nunca se queixe
Quero cantar, quero cantar livremente
Ao meu povo, à minha gente
Até que a voz me deixe

Quando um dia se calar / Para sempre a minha voz
A guitarra há-de lembrar / O amor que houve entre nós

Vergado ao peso da culpa / Se culpa houver, meu Senhor
Ao fado peço desculpa / Por não ter feito melhor

Fim de semana

Valentim Matias / Eduardo Lemos
Repertório de Rodrigo

O sol já despontou, é domingo
O céu surgiu azul, primavera
Eu fico mais um pouco
Entre os lençois contigo
Lá fora está o dia à nossa espera

É bom chegar ao desejado fim de semana
P‘ra descansar
Sem ter de andar engravatado, no autocarro
A transpirar
É bom sentir que ainda há vida para viver
Sem ter de ser essa corrida
Que nos põe loucos e faz sofrer


De tarde vou até à beira-mar
E faço uma paragem p‘ra pensar
Que a vida não é só de loucas correrias
Pois também o descanso tem seus dias

Hoje o almoço não é croissant comido ao balcão
Isso é prá manhã
Vai ser sentado, saboreado, bem instalado
Como um páxá
E as crianças brincam contentes à nossa volta
Esquecem as amas espuecem a escola
E à rédea solta jogam à bola

Jasmim

Vasco Graça Moura / António Quintino
Repertório de Joana Amendoeira

Já sei que vais partir e que a distância
Vai transformar-se em dor dentro de mim
E na saudade alastra uma fragância
Que é feita de tristeza e de jasmim

Vai perfurmar-se  a minha solidão
Com luzeiros da noite a iluminá-la
E nos dias de mansa viração
Há-de acalmar enquanto o Tejo a embala

Mas hão-de vir também os vendavais
E os temporais sem astros e sem lua
E eu vou ter mais saudades, mais e mais
Sem o som dos teus passos pela rua

Amor, ó meu amor e meu perfume
Minha essência da vida, desatino
Desta melancolia que resume
Num cheiro de jasmim o meu destino

Missangas

Paulo Abreu Lima / Paulo de Carvalho
Repertório de Mariza

Traz o cabelo enfeitado
De missangas coloridas
Um brinco de cada lado
Como um raminho de espigas

Não será a mais formosa / De todas as raparigas
Mas tem o nome da rosa / Que me inspira nas cantigas

Lá vai ela de ir à fonte / Talvez se cruze comigo
Onde o rio abraça a ponte / E nas margens cresce o trigo

E por mor deste calor / Talvez me mate esta mágoa
Nos braços do meu amor / Servidos num copo de água

O teu cabelo, menina / Faz-me lembrar amanhã
Com caracóis nos teus braços / Feitos novelos de lã

Acordo à luz dos teus olhos / Que se espreguiçam nos meus
Como um milagre de vida / E qualquer coisa de Deus

Rua do fado

Clemente Pereira / João Alberto
Repertório de Mariana Silva 

Querem saber
Qual a rua, finalmente
Onde mora ternamente
O fado por nós cantado
Eu vou dizer:
Qualquer rua onde o queixume
Fale d'amor e ciúme
Pode ser rua do fado      

Rua do fado é toda aquela onde mora
Uma voz triste que chora
Cantando o que a alma sente
E onde existe uma guitarra trinando
Ternamente acompanhando
Essa tristeza da gente

Mesmo distante
Das ruas a quem deu fama
Da Mouraria e d’Alfama
Bairro Alto e Madragoa
É bem vibrante
Porque ele não foi fadado
Para cumprir o seu fado
Só nas ruas de Lisboa

Fado das touradas

Hugo Vidal / José Galhardo
Repertório de Hermínia Silva 

Se o Simão contra um Caraça vem à praça
É então com bizarria / Que a corrida tem mais graça
E se mostra  nossa raça / Da mais nobre valentia

E se houver toiros de morte / E o rojão em mão certeira
Dando ao toiro o passaporte
P’ra vingar a triste sorte / De Fernando de Oliveira

E como louco aos seus heróis
O povo aplaude numa ovação
Vê o Tinoco, o Mourisco, o Vitorino Fróis
Num tourear de Núncio ou de Simão

A bancada até delira quando há tira
Com maior desembaraço / O mais novo Casimiro
Crava um ferro todo giro / Mesmo em cima do cachaço

E seu pai que ‘inda é caudilho / A provar que é ser cavaleiro
Num só curto mostra ao filho
A destreza, a força, o brilho / Da su’alma de toureiro

Gente perigosa

António José / Jaime Santos *fado latino*
Repertório de Maria de Fátima 

Passei por essa gente de fronte erguida
E até gostei da minha solidão
Fizeram num inferno a minha vida
É gente perigosa e sem perdão

Intrigas e calúnias inventaram
Fizeram tudo para me perder
E todos nesta rua acreditaram
Porque eu não me sabia defender

Só via o teu amor à minha frente
Sem ver que tu e eles são iguais
Quando déste razão a essa gente
Porque partiste e não voltaste mais

Agora essa gente não me assusta
Passaram anos, eu estou diferente
De tanto que aprendi à minha custa
Eu sou mais perigosa que essa gente

Às vezes digo até por brincadeira
De mim não percam mais tempo a falar
Os cães podem ladrar a noite inteira
Que a caravana sempre há-de passar

Sou fadista

Letra e música de João Nobre
Repertório de Ada de Castro

Não sou fadista de raça
Graça ou desgraça, vocês dirão
Sem ser Amália ou Severa
Sou tão sincera, como as que são

Gosto do fado, vencida
Mais que da vida, mais que de mim
Uma guitarra a gemer, podem crer
Eu hei-de ser sempre assim

Se ser fadista é pecado
Sou fadista sim senhor
Se é ter no fado um passado
Sou fadista sim senhor
Senti-lo à pele agarrado
Sou fadista sim senhor
Se é numa voz portuguesa
Chorar é tristeza, cantar é dar brado
Sei ser castiça no fado e no amor
Sou fadista sim senhor

Sinto-me bem nos retiros
Sítios mais giros que esses não há
Cheiram-me a espera de gado
Sabem-me a fado, gosto de ir lá

Tem tradições de algazarra
Há ali guitarra, tocam-se ali
Vou lá cear, mas acabo a cantar

Foi p’ra cantar que eu nasci

A carta do adeus

Maria L.Moniz Pereira / Mário Moniz Pereira
Repertório de Celeste Rodrigues 

Eu vou escrever outra vez / Mais uma carta de adeus
Mais uma carta perdida / Errada como esta vida
Que eu agradeci a Deus
Porque foi Deus que te fez

Meu amor, tu não me vês
Só vês a carta que lês
Não vás portanto inventar
Que a estou escrevendo a chorar;
Se estou bem, ou se estou mal
Isso agora é quase igual
Nesta carta que aqui vês
Vê apenas o que lês

Eu já não posso ceder / Um dia tinha de ser
Um dia tinha de vir / Em que fosse eu a partir
Em que fosse eu a dizer
Meu amor, não pode ser

A carta chegou ao fim
E bem ou mal redigida
Leva tudo o que há de mim
Leva toda a minha vida

Fado varina

Ary dos Santos / Mário Moniz Pereira
Repertório de Carlos do Carmo

De mão na anca descompõem a freguesa
Atrás da banca, chamam-lhe gosma e burguesa
Mas nessa voz como insulto à portuguesa
Há o sal de todos nós, há ternura e há beleza;
Do alto mar chega o pregão que se alastra
Têm ondas no andar quando embalam a canastra

Minha varina de chinelas por Lisboa
Em cada esquina é o mar que se apregoa
Nas escadinhas dás mais cor aos azulejos
Quando apregoas sardinhas
Que me sabem como beijos
Os teus pregões 
São iguais à claridade
Caldeirada de canções 
Que se entorna na cidade

Cordões ao peito numa luta que é honrada
A sogra a jeito na cabeça levantada
De perna nua com provocante altivez
Descobrindo o mar da rua, que esse sim, é português;
São as varinas dos poemas do Cesário
A vender a ferramenta de que o mar é o operário

Minha varina de chinelas por Lisboa
Em cada esquina é o mar que se apregoa
Nas escadinhas dás mais cor aos azulejos
Quando apregoas sardinhas
Que me sabem como beijos
Os teus pregões 
Nunca mais ganham idade
Versos frescos de Camões 
Com salada de saudade

Procura

António de Sousa / Alain Oulman
Repertório De Amália 

Corri a terra, o mar, o céu azul
Dentro e fora de mim de norte a sul
O que buscava assim não o sabia
Pedia-me mentiras e sorria


Se passava entre flores ali ficava
E a beijos que pedissem me emprestava
Mas nenhuma das flores era a flor
E nenhum dos amores era o amor

O que buscava assim não sabia
Pedia-me mentiras e sorria
Quantos caminhos andados e perdidos
Nos caminhos mortais dos meus sentidos

E um dia, o da verdade, veio a mim
E agora já me dou princípio e fim
Sou toda cicatrizes e cansaços
Mas tenho enfim, o abraço dos teus braços

Portugal somos nós

António Laranjeira / Raul Ferrão *fado alcântara*
Repertório de António Laranjeira 

Se neste fado, há pressa num sonho novo
Quisera levar ao povo, mais alegria
Em cada dia, quando tudo recomeça
Vencer é uma promessa, com valentia

Por esta hora do outro lado do mar
Há portugueses a lutar com devoção
Por Portugal, há pátria no pensamento
Num golo de sofrimento, pela nação

Meu país, cantamos por ti
Choramos por ti, gritamos quem és
Há heróis a sofrer como nós
Com Amália na voz e Eusébio nos pés
Minha voz que se junta à tua
E que te defende com o coração
Vem gritar Portugal p’ra rua
Que ninguem recua, nem perde a razão

Se mais um golo... acende por todo o lado
A luz na pátria no fado, em toda a gente
Pela cidade, num lugar ou numa aldeia
A fé o povo semeia, solenemente


Por esta hora, há um sentir português
Crescendo de lés a lés, p’lo mundo fora
Dentro do peito, há um grito de vitória

Que vai ficar na memória... chegou a hora 

Boneca de porcelana *Cidália*

António Rocha / Casimiro Ramos *fado três bairros* 
Repertório de Cidália Moreira  

Boneca de porcelana
foi asim que me chamaste
Quando me juraste amor
Qualquer pessoa se engana
E eu não vi que me enganaste
Foi o meu erro maior

Como jóia de valia
Peça da mais rara arte / 
Ou coisa de estimação
Coloquei-te nesse dia
Num lugar que tenho à parte / 
Dentro do meu coração

Afinal, és o contrário
E eu pobre cega não via / 
Que és objeto comum
Peça de barro ordinário
Não passas de fantasia / 
Coisa sem valor algum

Mesmo assim, fico pensando
Que apenas quero viver / 
P'ra este amor que te dou
Sei que continuo errando
Errar continua a ser / 
Próprio da mulher que eu sou

De loucura em loucura

João Dias / Martinho d’Assunção
Repertório de Fernanda Maria 

Vou de loucura em loucura
Como quem anda à procura
Duma constante ilusão
Velho sonho em que persigo
Uma voz, um rosto amigo
Perdido na multidão

Vou de loucura em loucura
E o próprio vento murmura
Promessas dum bem ausente
Que estranha alma é a minha
Que se sente tão sozinha
Entre tanta e tanta gente

Vou de loucura em loucura
Como quem anda à procura
Duma alma fugidia
Olhos perdidos nos céus
Eu canto pedido a Deus
P'ra me encontrar qualquer dia

Garota da Mouraria

João Monge / Marco Oliveira
Repertório de Hélder Moutinho 

Onde vais de vestidinho e de cintura cingida
Deixas no ar, a quem passa, aquela esperança pequena
Ninguém sabe o teu caminho, quem te vai casar despida
Mas é tanta a tua graça que só isso vale a pena

Os teus olhos, precipícios
Onde eu caio de manhã
Lá longe, o mestre Vinicíus
Caiu pela tua irmã

Maria, Maria da Mouraria
Quem vai levar um dia
O teu peito a navegar;
Maria da Mouraria
Não dás amor a ninguém
És nossa e ninguém te tem
Foste feita para sonhar;
Maria da Mouraria
Tens tanta graça ao passar

Vais da pena dum poeta à voz louca de um cantor
Dás a volta ao mundo inteiro nessa beleza sem fim
És um coração com seta, que não dói nem faz ardor
És um amor sem carteiro e eu gosto de ti, assim

O cavador

José Fernandes Badajoz / Duarte Machado
Repertório de Nuno de Aguiar

Mal rompe a madrugada 
Ponho ao ombro a minha enchada / Vou p'ro campo trabalhar
É assim a minha lida 
Porque gosto dessa vida / Nunca a poderei deixar

Quem no campo labutar 
É que sabe avaliar / O que custa a nossa arte
Quem o trabalho conhece 
Vê que o cavador merece / Elogio em toda a parte

O pobre trabalhador passa a vida atribulada
Desde manhã ao sol-pôr a puxar pela enchada
Sempre, sempre a trabalhar, é assim nosso viver
Se não podemos ganhar, já não temos de comer

Há quem diga por supor 
Que o pobre trabalhador / É rude e não sabe nada
Que é uma ideia embrutecida
Pois somente leva a vida / A puxar pela enchada

Sabemos compreender
Que é bonito saber ler / E que é bom ser educado
A sorte é que nos ilude

Mas não tem nada ser rude / Para ser homem honrado

Fado sorriso

Carlos Leitão / Custódio Castelo
Repertório de Mara Pedro

O dia amanheceu com a vontade
De cedo te sorrir, o que sonhei
Nás dois à beira-mar, a nossa idade
E um beijo envergonhado que não dei

Se o sol nasceu
Foi p’ra te ver chegar a mim
Então fui eu
Então fui eu
Então fui eu que quis nascer neste jardim
P’ra te abraçar
E te cantar o doce encanto em tua mão
Então fui eu
Então fui eu
Então fui eu a paixão do nosso canto

O tempo foi passando sem partir
A tarde anoiteceu, quase sem querer
E o beijo que nós demos a sorrir
É sonho que amanhã volta a nascer

Rosa de amargura

José Luís Gordo / Armando Machado *fado santa luzia*
Repertório de Francisco Sobral 

Meu amor, não me lamento
Tanto sol e tanto vento
Sonhar-te assim, quem me dera
Ter sorrisos de alegria
Arco-íris de fantasia
Sobre os céus da nossa espera

E nos campos do desejo
Há dois rios que te não vejo / Há dois mares que não são meus
Há desjos por arder
Tudo por me aconetecer / À espera dum olhar teu

Mas, ao dares-me a tua mão
Dou-te inteiro um coração / Com a loucura mais pura
Quem ama assim deste jeito
Traz cravado no seu peito / Uma rosa de ternura

Manual do coração

João Monge / Pedro Silva Martins, Luis José Martins *fado moutinho*
Repertório de Hélder Moutinho 

Maria foi ao baile e viu José
Viu António, viu Tó Zé
Para mim nem um olharzinho
Disse a José que estava meio cansada
António não levou nada
E o Tó Zé dançou sozinho

E foi dando nega atrás de nega
Nem um tango prá sossega
Não dançou nem por momentos
Como é que uma mulher tão bonita
Se revela tão esquisita
Fui tirando apontamentos

Maria ouviu piropos de poetas
De artistas, de profetas
Mas não deu bola a nenhum
Teve convites para jantar no céu
Luz das velas, num ilhéu
E a todos deu jejum

Até havia quem fizesse o pino
Cuspir fogo cantar hino
Em frente à sua janela
Mas nada, nada dava resultado
Nunca abria o cortinado
Ninguém atuou para ela

Eu apontava o que ela não queria
Só para entender Maria
Entender o seu olhar
Escrevia tudo em letra miudinha
Num caderno com capinha
Para aprender a sonhar

Houve um que deu anel de mil quilates
Lenços, brincos, flores de engate
Coisas que ela nunca usou
Talvez ela só queira ser amada
Ser tratada, ser beijada
Como nunca alguém beijou

Qualquer coisa de fado

Tiago Torres da Silva / José Marques *fado triplicado*
Repertório de Rita Santos 

Respeitando a tradição
Sem ouvir o coração 
Não saímos do lugar
Entre nós e o passado
Há qualquer coisa de fado
Que temos de abandonar

Quando as guitarras 'stão prontas
Pode a alma fazer contas / À memória mais sofrida
Mas depois quando a voz chora
É inventando o agora / Que o fado se torna vida

Entre nós e o futuro
Vamos construindo um muro / Que ninguém sabe transpor
Mas quem viu o outro lado
Sabe que lá mora o fado / Quando aqui mora o amor

Canta-se o fado na sede
De galgar essa parede  / Que cada vez é mais alta
O fado está sempre além 
Porque quanto mais se tem / Mais dele sentimos falta