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Rua do fado

Clemente Pereira / João Alberto
Repertório de Mariana Silva 

Querem saber
Qual a rua, finalmente
Onde mora ternamente
O fado por nós cantado
Eu vou dizer:
Qualquer rua onde o queixume
Fale d'amor e ciúme
Pode ser rua do fado      

Rua do fado é toda aquela onde mora
Uma voz triste que chora
Cantando o que a alma sente
E onde existe uma guitarra trinando
Ternamente acompanhando
Essa tristeza da gente

Mesmo distante
Das ruas a quem deu fama
Da Mouraria e d’Alfama
Bairro Alto e Madragoa
É bem vibrante
Porque ele não foi fadado
Para cumprir o seu fado
Só nas ruas de Lisboa

Fado das touradas

Hugo Vidal / José Galhardo
Repertório de Hermínia Silva 

Se o Simão contra um Caraça vem à praça
É então com bizarria / Que a corrida tem mais graça
E se mostra  nossa raça / Da mais nobre valentia

E se houver toiros de morte / E o rojão em mão certeira
Dando ao toiro o passaporte
P’ra vingar a triste sorte / De Fernando de Oliveira

E como louco aos seus heróis
O povo aplaude numa ovação
Vê o Tinoco, o Mourisco, o Vitorino Fróis
Num tourear de Núncio ou de Simão

A bancada até delira quando há tira
Com maior desembaraço / O mais novo Casimiro
Crava um ferro todo giro / Mesmo em cima do cachaço

E seu pai que ‘inda é caudilho / A provar que é ser cavaleiro
Num só curto mostra ao filho
A destreza, a força, o brilho / Da su’alma de toureiro

Gente perigosa

António José / Jaime Santos *fado latino*
Repertório de Maria de Fátima 

Passei por essa gente de fronte erguida
E até gostei da minha solidão
Fizeram num inferno a minha vida
É gente perigosa e sem perdão

Intrigas e calúnias inventaram
Fizeram tudo para me perder
E todos nesta rua acreditaram
Porque eu não me sabia defender

Só via o teu amor à minha frente
Sem ver que tu e eles são iguais
Quando déste razão a essa gente
Porque partiste e não voltaste mais

Agora essa gente não me assusta
Passaram anos, eu estou diferente
De tanto que aprendi à minha custa
Eu sou mais perigosa que essa gente

Às vezes digo até por brincadeira
De mim não percam mais tempo a falar
Os cães podem ladrar a noite inteira
Que a caravana sempre há-de passar

Sou fadista

Letra e música de João Nobre
Repertório de Ada de Castro

Não sou fadista de raça
Graça ou desgraça, vocês dirão
Sem ser Amália ou Severa
Sou tão sincera, como as que são

Gosto do fado, vencida
Mais que da vida, mais que de mim
Uma guitarra a gemer, podem crer
Eu hei-de ser sempre assim

Se ser fadista é pecado
Sou fadista sim senhor
Se é ter no fado um passado
Sou fadista sim senhor
Senti-lo à pele agarrado
Sou fadista sim senhor
Se é numa voz portuguesa
Chorar é tristeza, cantar é dar brado
Sei ser castiça no fado e no amor
Sou fadista sim senhor

Sinto-me bem nos retiros
Sítios mais giros que esses não há
Cheiram-me a espera de gado
Sabem-me a fado, gosto de ir lá

Tem tradições de algazarra
Há ali guitarra, tocam-se ali
Vou lá cear, mas acabo a cantar

Foi p’ra cantar que eu nasci

A carta do adeus

Maria L.Moniz Pereira / Mário Moniz Pereira
Repertório de Celeste Rodrigues 

Eu vou escrever outra vez / Mais uma carta de adeus
Mais uma carta perdida / Errada como esta vida
Que eu agradeci a Deus
Porque foi Deus que te fez

Meu amor, tu não me vês
Só vês a carta que lês
Não vás portanto inventar
Que a estou escrevendo a chorar;
Se estou bem, ou se estou mal
Isso agora é quase igual
Nesta carta que aqui vês
Vê apenas o que lês

Eu já não posso ceder / Um dia tinha de ser
Um dia tinha de vir / Em que fosse eu a partir
Em que fosse eu a dizer
Meu amor, não pode ser

A carta chegou ao fim
E bem ou mal redigida
Leva tudo o que há de mim
Leva toda a minha vida

Fado varina

Ary dos Santos / Mário Moniz Pereira
Repertório de Carlos do Carmo

De mão na anca descompõem a freguesa
Atrás da banca, chamam-lhe gosma e burguesa
Mas nessa voz como insulto à portuguesa
Há o sal de todos nós, há ternura e há beleza;
Do alto mar chega o pregão que se alastra
Têm ondas no andar quando embalam a canastra

Minha varina de chinelas por Lisboa
Em cada esquina é o mar que se apregoa
Nas escadinhas dás mais cor aos azulejos
Quando apregoas sardinhas
Que me sabem como beijos
Os teus pregões 
São iguais à claridade
Caldeirada de canções 
Que se entorna na cidade

Cordões ao peito numa luta que é honrada
A sogra a jeito na cabeça levantada
De perna nua com provocante altivez
Descobrindo o mar da rua, que esse sim, é português;
São as varinas dos poemas do Cesário
A vender a ferramenta de que o mar é o operário

Minha varina de chinelas por Lisboa
Em cada esquina é o mar que se apregoa
Nas escadinhas dás mais cor aos azulejos
Quando apregoas sardinhas
Que me sabem como beijos
Os teus pregões 
Nunca mais ganham idade
Versos frescos de Camões 
Com salada de saudade

Procura

António de Sousa / Alain Oulman
Repertório De Amália 

Corri a terra, o mar, o céu azul
Dentro e fora de mim de norte a sul
O que buscava assim não o sabia
Pedia-me mentiras e sorria


Se passava entre flores ali ficava
E a beijos que pedissem me emprestava
Mas nenhuma das flores era a flor
E nenhum dos amores era o amor

O que buscava assim não sabia
Pedia-me mentiras e sorria
Quantos caminhos andados e perdidos
Nos caminhos mortais dos meus sentidos

E um dia, o da verdade, veio a mim
E agora já me dou princípio e fim
Sou toda cicatrizes e cansaços
Mas tenho enfim, o abraço dos teus braços

Portugal somos nós

António Laranjeira / Raul Ferrão *fado alcântara*
Repertório de António Laranjeira 

Se neste fado, há pressa num sonho novo
Quisera levar ao povo, mais alegria
Em cada dia, quando tudo recomeça
Vencer é uma promessa, com valentia

Por esta hora do outro lado do mar
Há portugueses a lutar com devoção
Por Portugal, há pátria no pensamento
Num golo de sofrimento, pela nação

Meu país, cantamos por ti
Choramos por ti, gritamos quem és
Há heróis a sofrer como nós
Com Amália na voz e Eusébio nos pés
Minha voz que se junta à tua
E que te defende com o coração
Vem gritar Portugal p’ra rua
Que ninguem recua, nem perde a razão

Se mais um golo... acende por todo o lado
A luz na pátria no fado, em toda a gente
Pela cidade, num lugar ou numa aldeia
A fé o povo semeia, solenemente


Por esta hora, há um sentir português
Crescendo de lés a lés, p’lo mundo fora
Dentro do peito, há um grito de vitória

Que vai ficar na memória... chegou a hora 

Boneca de porcelana *Cidália*

António Rocha / Casimiro Ramos *fado três bairros* 
Repertório de Cidália Moreira  

Boneca de porcelana
foi asim que me chamaste
Quando me juraste amor
Qualquer pessoa se engana
E eu não vi que me enganaste
Foi o meu erro maior

Como jóia de valia
Peça da mais rara arte / 
Ou coisa de estimação
Coloquei-te nesse dia
Num lugar que tenho à parte / 
Dentro do meu coração

Afinal, és o contrário
E eu pobre cega não via / 
Que és objeto comum
Peça de barro ordinário
Não passas de fantasia / 
Coisa sem valor algum

Mesmo assim, fico pensando
Que apenas quero viver / 
P'ra este amor que te dou
Sei que continuo errando
Errar continua a ser / 
Próprio da mulher que eu sou

De loucura em loucura

João Dias / Martinho d’Assunção
Repertório de Fernanda Maria 

Vou de loucura em loucura
Como quem anda à procura
Duma constante ilusão
Velho sonho em que persigo
Uma voz, um rosto amigo
Perdido na multidão

Vou de loucura em loucura
E o próprio vento murmura
Promessas dum bem ausente
Que estranha alma é a minha
Que se sente tão sozinha
Entre tanta e tanta gente

Vou de loucura em loucura
Como quem anda à procura
Duma alma fugidia
Olhos perdidos nos céus
Eu canto pedido a Deus
P'ra me encontrar qualquer dia

Garota da Mouraria

João Monge / Marco Oliveira
Repertório de Hélder Moutinho 

Onde vais de vestidinho e de cintura cingida
Deixas no ar, a quem passa, aquela esperança pequena
Ninguém sabe o teu caminho, quem te vai casar despida
Mas é tanta a tua graça que só isso vale a pena

Os teus olhos, precipícios
Onde eu caio de manhã
Lá longe, o mestre Vinicíus
Caiu pela tua irmã

Maria, Maria da Mouraria
Quem vai levar um dia
O teu peito a navegar;
Maria da Mouraria
Não dás amor a ninguém
És nossa e ninguém te tem
Foste feita para sonhar;
Maria da Mouraria
Tens tanta graça ao passar

Vais da pena dum poeta à voz louca de um cantor
Dás a volta ao mundo inteiro nessa beleza sem fim
És um coração com seta, que não dói nem faz ardor
És um amor sem carteiro e eu gosto de ti, assim

O cavador

José Fernandes Badajoz / Duarte Machado
Repertório de Nuno de Aguiar

Mal rompe a madrugada 
Ponho ao ombro a minha enchada / Vou p'ro campo trabalhar
É assim a minha lida 
Porque gosto dessa vida / Nunca a poderei deixar

Quem no campo labutar 
É que sabe avaliar / O que custa a nossa arte
Quem o trabalho conhece 
Vê que o cavador merece / Elogio em toda a parte

O pobre trabalhador passa a vida atribulada
Desde manhã ao sol-pôr a puxar pela enchada
Sempre, sempre a trabalhar, é assim nosso viver
Se não podemos ganhar, já não temos de comer

Há quem diga por supor 
Que o pobre trabalhador / É rude e não sabe nada
Que é uma ideia embrutecida
Pois somente leva a vida / A puxar pela enchada

Sabemos compreender
Que é bonito saber ler / E que é bom ser educado
A sorte é que nos ilude

Mas não tem nada ser rude / Para ser homem honrado

Fado sorriso

Carlos Leitão / Custódio Castelo
Repertório de Mara Pedro

O dia amanheceu com a vontade
De cedo te sorrir, o que sonhei
Nás dois à beira-mar, a nossa idade
E um beijo envergonhado que não dei

Se o sol nasceu
Foi p’ra te ver chegar a mim
Então fui eu
Então fui eu
Então fui eu que quis nascer neste jardim
P’ra te abraçar
E te cantar o doce encanto em tua mão
Então fui eu
Então fui eu
Então fui eu a paixão do nosso canto

O tempo foi passando sem partir
A tarde anoiteceu, quase sem querer
E o beijo que nós demos a sorrir
É sonho que amanhã volta a nascer

Rosa de amargura

José Luís Gordo / Armando Machado *fado santa luzia*
Repertório de Francisco Sobral 

Meu amor, não me lamento
Tanto sol e tanto vento
Sonhar-te assim, quem me dera
Ter sorrisos de alegria
Arco-íris de fantasia
Sobre os céus da nossa espera

E nos campos do desejo
Há dois rios que te não vejo / Há dois mares que não são meus
Há desjos por arder
Tudo por me aconetecer / À espera dum olhar teu

Mas, ao dares-me a tua mão
Dou-te inteiro um coração / Com a loucura mais pura
Quem ama assim deste jeito
Traz cravado no seu peito / Uma rosa de ternura

Manual do coração

João Monge / Pedro Silva Martins, Luis José Martins *fado moutinho*
Repertório de Hélder Moutinho 

Maria foi ao baile e viu José
Viu António, viu Tó Zé
Para mim nem um olharzinho
Disse a José que estava meio cansada
António não levou nada
E o Tó Zé dançou sozinho

E foi dando nega atrás de nega
Nem um tango prá sossega
Não dançou nem por momentos
Como é que uma mulher tão bonita
Se revela tão esquisita
Fui tirando apontamentos

Maria ouviu piropos de poetas
De artistas, de profetas
Mas não deu bola a nenhum
Teve convites para jantar no céu
Luz das velas, num ilhéu
E a todos deu jejum

Até havia quem fizesse o pino
Cuspir fogo cantar hino
Em frente à sua janela
Mas nada, nada dava resultado
Nunca abria o cortinado
Ninguém atuou para ela

Eu apontava o que ela não queria
Só para entender Maria
Entender o seu olhar
Escrevia tudo em letra miudinha
Num caderno com capinha
Para aprender a sonhar

Houve um que deu anel de mil quilates
Lenços, brincos, flores de engate
Coisas que ela nunca usou
Talvez ela só queira ser amada
Ser tratada, ser beijada
Como nunca alguém beijou

Qualquer coisa de fado

Tiago Torres da Silva / José Marques *fado triplicado*
Repertório de Rita Santos 

Respeitando a tradição
Sem ouvir o coração 
Não saímos do lugar
Entre nós e o passado
Há qualquer coisa de fado
Que temos de abandonar

Quando as guitarras 'stão prontas
Pode a alma fazer contas / À memória mais sofrida
Mas depois quando a voz chora
É inventando o agora / Que o fado se torna vida

Entre nós e o futuro
Vamos construindo um muro / Que ninguém sabe transpor
Mas quem viu o outro lado
Sabe que lá mora o fado / Quando aqui mora o amor

Canta-se o fado na sede
De galgar essa parede  / Que cada vez é mais alta
O fado está sempre além 
Porque quanto mais se tem / Mais dele sentimos falta

Verdade e mentira

Letra e música de Pedro Osório
Rpertório de Francisco Moreira *Kiko*

Tantas palavras são ditas / P’ra disfarçar a mentira
Tantas palavras bonitas / Para encobrir a verdade
Tanta bondade fingida/ Tanta mentira doirada
Tanta notícia esquecida / Tanta verdade calada 

Se dizem que trazemos ao nascer
O destino já marcado... mentira
Se dizem que devemos aprender
A mudar o nosso fado... verdade
A vida não se pode deitar fora
Passando cada dia como quem faz um recado
Quem pensa que o destino marca a hora
Ou anda ao desengano ou então foi enganado

Eu hei-de ter o meu fado / Feito p'la minha vontade
Com o futuro agarrado / Hei-de matar a saudade
Hei-de enganar a mentira / Hei-de beber a verdade
E não me venham dizer / Que isto são coisas da idade

Fado menor

Maria Manuel Cid / Popular *fado menor*
Repertório de António Zambujo 

Fado menor meu castigo
Meu pecado original
Que trago sempre comigo
Sem ter feito nenhum mal

Velhinho, levas a vida / A pedir por quem padece
E quem a sente perdida / Confia na tua prece

Saudade, tristeza, amor / Em cada nota dolente
São preces do cantador 7 A rezar por toda a gente

Nenhuma dor já sofrida / Pode igualar o tormento
De cantar a dor da vida / E morrer de sofrimento

Até que volte à luz

Fernando Campos de Castro / Armandinho *fado estoril*
Repertório de Rita Santos

Aqui neste vazio onde tão só me encontro
A vida que me quer tornou-se desespero
Se tudo em mim é frio tristeza e desencontro
De que me serve a vida que não quero

Sempre que vivo um sonho e nesse sonho avanço
A vida corta o passo e tudo em mim recua
Num gelo tão medonho, sem calma nem descanso
Deixando-me cansaço na alma triste e nua

Se nada me seduz, quero voltar um dia
À vida que eu quis ter e há muito me deixou
Até que volte à luz da tua companhia
Para voltar a ser aqulo que não sou

Voz triste

Tina Jofre / Francisco Viana *fado vianinha*
Repertório de Tina Jofre

Sou uma voz triste cantando
Chorando penas sem fim
E vós que me estais escutando
Não tenhais pena de mim

Fui feliz e vivi bem / Tive um grande, grande amor
Amada como ninguém / Razão p’ra chorar de dor

Foram anos de loucura / De muito amor e carinho
Terminou essa ventura / A morte ganhou caminho

Separou a união / Que Deus tinha abençoado
Deu-me porém o condão / Vencer dor cantando fado

Rivais

Mário Raínho / Fontes Rocha *fado isabel*
Repertório de José da Câmara 

Meu inquieto coração
Não é que me apeteça
Mas tinhas muita razão
Em te mudares p’ra cabeça

A cabeça é das ideias / O coração, dos ideais
Moram paredes meias / Parece que são rivais

Lembranças a meu jeito / Feitas de sombras e luz
No peito amores a eito / Da cabeça negra cruz

Atarefada cabeça / Para guardares a razão
Leva a alegria e depressa / Muda-te para o coração

Voz do fado

Fernando Farinha / Casimiro Ramos *fado pinóia*
Repertório de Fernando Farinha 

Há quem afirme que o fado / Com voz, tem pouca intenção
Quanto a meu ver, o cantar / Só na voz tem tradução
No fado, ou qualquer canção / Seus fiéis cultivadores
Só nos mostram ser cantores / Vibrando num grito d'alma
Dizer é arte de talma
É domínio dos atores 

Há quem não tenha garganta / E dê ao fado, expressão
Mas a voz que se levanta / Tem muito mais coração
O hino d'uma nação / Estando ao coração ligado
Quando p'lo povo é cantado / É sempre com voz soante
Um hino, p'ra ser vibrante
Nunca pode ser falado 

O mesmo acontece ao fado / Que nasceu p'ra se cantar
E não p'ra 'star amarrado / Ao peito que o quer soltar
Cantar é saver vibrar / Com voz, com alma e ralé
Grito d'esperança e de fé / Bem arrancado do peito
Fado falado a preceito
Só o cantou Villaret

Jesus de misericórdia

Carlos Alexandre Pinto / Alfredo Duarte *marcha do marceneiro*
Repertório de João Chora 

Neste Ribatejo imenso
Cheio de labor intenso
De virtude e tradição
Parou a faina do dia
Já ninguém tem valentia
É dia da procissão

Parou no mundo a discórdia
E o Jesus de misericórdia / Na sua beata unção
Vai p'las ruas e vielas
Olha todas as janelas / Do meio da procissão

Chmusca dos arrozais
Dos vinhedos e trigais / Do sol, da luz, da paixão
Deixa a campina em descanso
Todo o toiro bravo é manso / Ao passar a procissão

Na cruz com olhar sereno
Meigo, bom, o nazareno / Abençoa os pecadores
Jesus da misericórdia
Trazei ao mundo a concórdia / 
Rogai por nós pecadores

O lado oculto da noite

Carlos Bessa / José António Sabrosa *4as*
Repertório de Rita Santos 

Meus segredos estão guardados
No lado oculto da lua
Severamente arrancados
Das pedras da minha rua

Lá estão nossos momentos / De felicidade e tristeza
Mistura de sentimentos / Na pequenez da grandeza

Já sinto a noite chorando / Ao sentir como eu estou
Ao ver o tempo passando / Sobre um amor que findou

Dorme o silêncio na cama / Aonde eu durmo também
O frio do corpo chama / Pelo seu nome, ele não vem

Página da história acabada / Porque amor, já não sou tua
Tua imagem está guardada / No lado oculto na rua

Letra para um hino

Manuel Alegre / António Chaínho
Repertório de Humberto Sotto Mayor 

É possível falar sem um nó na garganta
É possível amar sem que venham proibir
É possível correr sem que seja a fugir
Se tens vontade de cantar
Não tenhas medo, canta

É possível andar sem olhar para o chão
É possível viver sem que seja de rastos
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
Se te apetecer dizer não
Grita comigo, não

É possível viver de outro modo
É possível transformares em arma a tua mão
É possível o amor, é possível o pão
É possível viver, viver, viver de pé

Não te deixes murchar, não deixes que te domem
É possível viver sem fingir que se vive
É possível ser homem, é possível ser homem
É possível ser livre, livre livre, livre

Fado do Montijo

Humberto Fortunato / Joaquim Carla
Repertório de Moniz Trindade 

Duma aldeia portuguesa / Da gente alegre e sem mágoa
Nasceu a vila princesa / Das vilas da borda d'água

Cresceu e fez-se mulher / Essa aldeia ribeirinha
Princesa deixou de ser / Mas passou a ser rainha

Aldeia galega d'outrora
Das esperas e das touradas
Dos fados e guitarradas
És o Montijo de agora
Vila princesa
O trabalho é seu brasão
E a gente é bem portuguesa
Como manda a tradição

Lá nasceram bons forcados / Rijos campinos, toureiros
Teve também afamados / E varonis cavaleiros

Em muitas tardes de glória / O sol brilhando na praça
Davam mais uma vitória / E mais nome à sua raça

Palavras encruzilhadas

Mário Raínho / Armando Machado *fado sta luzia*
Repertótio de José da Câmara 

Assim que um feixe de luz
Se projeta sobre a cruz
Das ruas por mim cruzadas
A minh’alma se agiganta
E atira-me à garganta
Palavras encruzilhadas

Tomo o lugar do meu fado
De verso em verso enleado / Enfeito a noite onde moro
Com os poemas que teço
Avé-marias dum terço / Que a desfiar me demoro

Fica-me a noite menor
Desbravo esta voz e a dor / Num canto mais compassado
Chega a estrela da manhã
Vou sonhar porque amanhã / Regresso de novo ao fado

Uma lágrima por engano

Fabrizio Romano / Mísia
Repertório de Mísia 

Nasceu sem ti a cidade / Lisboa ficou pequena
Nesta fria claridade / Deito-me cheia de penas

Amália nossa Senhora / Luz deste cego caminho
Na tua prece redentora / Erros meus choro baixinho

Foi por vontade de Deus / Que de nós foste levada
Num barco negro p’los céus / Triste sina, conta errada

Vagamundo por ti trago / O meu coração cigano
Roubam-me as cordas do fado / Uma lágrima por engano

Alma perdida

Florbela Espanca / Júlio Proença *fado esmeraldinha*
Repertório de Joaquim Cardoso 

Toda esta noite o rouxinol chorou
Gemeu, rezou, gritou perdidamente
Alma de rouxinol, alma de gente
Tu és, talvez, alguém que se finou

Tu és, talvez, um sonho que passou
Que se fundiu na dor, suavemente
Talvez sejas a alma, alma doente
D'alguém que quis amar e nunca amou

Toda a noite choraste e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós

Contaste tanta coisa à noite calma;
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz

Lírio roxo

António Gedião / Jaime Santos
Repertório de Humberto Sotto Mayor 

Viajei por toda a terra
Desde o norte até ao sul
Em toda a parte do mundo
Vi mar verde e céu azul

Em toda a parte vi flores / Romperem do pó do chão
Universais, como as dores / 
Que em toda a parte se dão

Vi sempre estrelas serenas / E as ondas morrendo em espuma
Todo o sol, um sol apenas / E a lua sempre só uma

Diferente de quanto existe / Só a dor que me reparte
Enquanto em mim morro triste / 
Nasço alegre em toda a parte

O fado *T.Jofre*

Letra e musica de Tina Jofre *fado jofre*
Repertório de Tina Jofre

O fado, palavra tão portuguesa
Foi Camões que a inventou
O fado como destino, tristeza
Num tempo que já passou

O fado, arpejado em menor
Em maior ou em corrido
O fado cantado com o negro misturado
Tem verdadeiro sentido

O fado está-nos na alma / Numa alma especial
O fado é lascivo e acalma / O fado é fado, é Portugal

O fado, melodia popular
Muito nossa e que às vezes
O fado faz-nos sentir sonhar
Porque somos portugueses

O fado gganhou expressão co’a guitarra
De Coimbra ou de Lisboa
O fado agarra
O amor e a saudade na voz de quem o entoa

Lisboa perto e longe

Manuel Alegre / António Chaínho
Repertório de Humberto Sotto Mayor 

Lisboa chora dentro de Lisboa
Lisboa tem palácios, sentinelas
E fecham-se janelas quando voa
Nas praças de Lisboa, branca e rota
A blusa de seu povo, essa gaivota 

Lisboa tem o sol crucificado
Nas armas que em Lisboa estão voltadas
Contra as mãos desarmadas, povo armado
De vento revoltado, violas astros
Meu povo que ninguém verá de rastos 

Lisboa tem um cravo em cada mão
Tem camisas que abril desabotoa
Mas em maio Lisboa é uma canção
Onde há versos que são cravos vermelhos
Lisboa que ninguem verá de joelhos